Home Proposta e Metodologia Ferramentas Eventos Parceria e Links Textos e Publicações Contato
 
 
Ver outros textos e publicações

Welter, G M-R, trabalho apresentado no Encontro da Sociedade Internacional de Szondi, em março de 2002, em Zurique

O BBT foi introduzido no Brasil no ano de 1990 pelo Prof. André Jacquemin, então diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.

Jacquemin entrou em contato com o teste durante estágio de pós-doutorado no "Centre de Consultation et d’Orientation Psychologique et Pédagogique" na "Université Catholique de Louvain" em 1980. Ficou encantado com o BBT, por constituir um instrumento de avaliação que privilegia a interação entre o consultor e o orientando, focada nas questões trazidas por este. Interessou-se em divulgá-lo no Brasil, dando início a pesquisas quanto à validade interna e sua adequação à realidade brasileira em 1982.

Os resultados foram apresentados em congressos e reuniões científicas no Brasil e na Bélgica. Foi no VI Congresso Latino-Americano de Rorschach e Outras Técnicas Projetivas, em 1985, que tive a oportunidade de assistir à apresentação BBT. Sua tradução foi iniciada em 1988, sendo finalmente publicado em 1991, pelo Centro Editor de Testes e Pesquisas em Psicologia.

A tradução para o português foi feita a partir do texto em francês, traduzido por Ria Walgraffe e Leleux. Na edição brasileira foram eliminados os dados normativos suíços, recebendo o acréscimo de um capítulo introdutório sobre o "BBT no Brasil".

Em seus estudos com as 96 fotos originais, quanto à validade do conteúdo no Brasil, Jacquemin observou que 80% das fotos eram percebidas corretamente pelos sujeitos da pesquisa, sendo que o restante se dividia igualmente em fotos que confirmavam apenas o fator secundário e fotos que evocavam fatores estranhos aos fatores primários e secundários propostos por Achtnich, principalmente com relação às fotos G, G’ e W.

Os estudos realizados com as fotos femininas apontaram que 85% das fotos eram percebidas corretamente, sendo que as fotos com problema novamente se concentravam nos fatores G, G’, além de fotos O e Z.

Esses resultados preliminares sugeriam que a versão masculina poderia ser utilizada no Brasil em ambos os sexos e que a versão feminina também se mostrava adequada para utilização na realidade brasileira.

No entanto, Jacquemin retomou a pesquisa para dar continuidade ao processo de avaliação da adequação do BBT como instrumento de exame psicológico dentro do contexto sócio-cultural brasileiro. A partir da análise das associações fornecidas por 91 sujeitos do sexo masculino entre 15 e 19 anos e da aplicação do critério de 58% de freqüência de associações confirmando o fator primário, concluiu que 42 fotos das 96 originais necessitariam de reelaboração, sobretudo as fotos referentes aos fatores W, G, G´e Z.

No processo de reelaboração das fotos foram realizadas entrevistas com profissionais, cujo material serviu para definir as situações que melhor representariam o profissional nas novas fotos, correspondendo, ao mesmo tempo, aos fatores primários propostos por Achtnich. As situações profissionais fotografadas foram simuladas no próprio local de trabalho. Sete fotos selecionadas de cada fator foram submetidas à avaliação, buscando identificar as fotos que suscitassem nos sujeitos verbalizações associadas ao fator primário.

Exemplo, de reelaboração de foto - fator W:

Foto Ws17 - Fisioterapeuta. Na foto original temos um homem dentro de uma banheira e um outro, vestido de branco, do lado de fora, tocando sua perna. Segundo Jacquemin esta foto era muito rejeitada por sugerir intimidade entre dois homens, tema delicado num país de cultura machista como o Brasil, não evocando, ao mesmo tempo, associações relativas ao atendimento, dedicação e prestação de serviços em situação de proximidade.

A foto proposta por Jacquemin no BBT-Br é de um homem cuidando de uma mulher, sugerida através de um profissional no centro da foto tocando a perna de uma mulher, porém sem destacar a figura feminina. O nível de rejeição dessa foto baixou consideravelmente.

Ao conjunto de fotos reelaboradas deu-se o nome de BBT-Br, constituindo um jogo de ... fotos, na série masculina.

Estas fotos foram utilizadas em aplicações coletivas, mediante apresentação de slides, com o objetivo de obter dados normativos para o contexto sócio-cultural brasileiro. Do estudo participaram estudantes do Ensino Médio, da rede de ensino pública e particular, bem como estudantes universitários da área de Ciências Exatas, Ciências Humanas e de Ciências Biológicas, complementados com avaliações clínicas de profissionais fiéis a sua profissão.

O resultado de sua pesquisa " BBT-Br – Teste de Fotos de Profissões, Normas, Adaptação Brasileira, Estudo de Caso" foi publicado em 2000 . Essa obra é acompanhada de um pequeno dicionário de funções, que visa facilitar o trabalho de cotação das verbalizações, segundo as funções propostas por Achtnich.

Recentemente Jacquemin e sua equipe iniciou o estudo com a série feminina, obedecendo aos mesmos critérios adotados na adaptação da série masculina à realidade brasileira. Em função do seu adoecimento, esse trabalho está sendo conduzido por Sonia Regina Pasian, supervisora técnica da tradução para o português do BBT e que já participara da pesquisa com as fotos masculinas.

As fotos da série feminina que já foram reelaboradas estão prontas, mas ainda são alvo de estudo, não se encontrando disponíveis no mercado. O jogo da série feminina do BBT-Br constitui de .... novas fotos.

Tive oportunidade de receber formação no BBT com o próprio autor, quando de sua segunda visita ao Brasil, por ocasião do lançamento da edição brasileira do BBT, em 1991. Desde 1992 trabalho com o BBT no atendimento de clientes particulares em meu consultório, inicialmente usando a série original e, desde 1999, usando o BBT-Br.

Nestes três anos pude observar que muitas das fotos do BBT-Br são realmente menos ambíguas, embora tenha minhas restrições quanto à utilização de figuras públicas e notórias no cenário cultural brasileiro, favorecendo associações ligadas à pessoa e não à profissão retratada ou ao fator primário proposto por Achtnich. Atualmente utilizo um conjunto de fotos que incluem fotos do BBT-Br, sem as figuras públicas.

Ainda não tive oportunidade de trabalhar com a versão brasileira da série feminina, apesar de já a conhecer.

Nesses 10 anos de trabalho com o BBT pude constatar que o grau de satisfação com a orientação recebida pelos meus clientes, em aplicação individual em consultório, é bastante satisfatório. Em recente estudo com 116 orientandos ( 62 moças e 54 rapazes de 14 a 20 anos de idade) que atendi desde 1995, verifiquei que 73% fizeram uma escolha profissional baseada nos fatores primários identificados através do BBT e estavam satisfeitos com ela; 6 % dos orientandos fizerem sua opção de curso considerando os fatores secundários e também estavam satisfeitos. 20,5% ainda não haviam encontrado o seu caminho, sendo que 5% enfrentavam problemas de ordem emocional e/ou familiar que comprometiam sua maturidade ou o processo de tomada de decisão e 15,5 % dos orientandos ainda não haviam concluído o Ensino Médio ou haviam viajado para fazer intercâmbio e, com isso adiado o momento de escolha.

Desde 1998 venho desenvolvendo um trabalho junto à área de Recursos Humanos com o objetivo de verificar a concordância, ou discordância, entre a estrutura de inclinação profissional de candidatos a uma determinada posição na empresa com a estrutura de inclinação dessa posição (perfil de exigência do cargo/função). Esse trabalho exige uma descrição clara sobre a atividade a ser exercida, o que nem sempre é possível em função da falta de clareza que os profissionais de RH têm acerca daquilo que é realmente exigido no exercício cotidiano da profissão. Para tanto aplico a metodologia proposta por Achtnich, considerando os cinco aspectos em minha análise do cargo: a ação, o instrumento, o objeto, o ambiente e o objetivo em sua correspondência fatorial, tendo como base a descrição do cargo proposta pelo responsável pela área.

A utilização do BBT- Br no processo de seleção em RH mostrou que sujeitos adultos, de um modo geral, apresentam um número médio de escolhas positivas superior aos obtidos nos dados normativos de Jacquemin e Nunes. Isso me motivou a fazer uma pesquisa preliminar, tendo em vista a necessidade de se obter dados normativos para essa faixa etária.

Os resultados obtidos a partir de 169 protocolos, 72 mulheres e 97 homens de 18 a 51 anos de idade, mostram que, de um modo geral, o número mediano de escolhas positivas é de 46-47 no grupo feminino e 54-55 no grupo masculino. A média de escolhas positivas obtida é praticamente 100% superior ao apontado por Achtnich em seu estudo normativo com adolescentes ( 27-28 grupo feminino e 23-24 grupo masculino) e por Jacquemin e Nunes (23-24 grupo feminino e 31-32 grupo masculino). Embora se trate de um grupo significativo, os dados obtidos não podem ser generalizados. No entanto, indicam a necessidade de se obter dados normativos para a população adulta, uma vez que o BBT também se mostra útil no trabalho de aconselhamento de carreira e de seleção de pessoal.

Lucy Leal Melo-Silva, em seu trabalho de doutorado sob supervisão de Jacquemin, procurou avaliar resultados e processos de diferentes práticas de intervenção em Orientação Profissional. Em seu estudo concluiu que o BBT constitui um instrumento valioso quando conjugado com o grupo operativo, contribuindo positivamente para a resolutividade do processo de escolha profissional de adolescentes.

O BBT vem despertando grande interesse nos profissionais que trabalham em Orientação Profissional, embora haja uma certa preocupação quanto ao nível de conhecimento teórico requerido. O BBT exige que o profissional assimile um novo referencial teórico, a Teoria da Personalidade de Szondi, "Psicologia do Destino", pouco difundida no Brasil.

Psicólogos ligados à equipe de Jacquemin do Centro de Pesquisas em Psicodiagnóstico (CPP) da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da e Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto têm oferecido cursos introdutórios ao BBT em cursos pré-congressos ou dentro do programa de cursos de especialização em Orientação Profissional. Há unanimidade quanto à necessidade de supervisão no manejo do teste, pois a leitura do manual por si só não é suficiente. Pessoalmente, acho que seria importante introduzir o BBT nos programas de graduação das faculdades de Psicologia, como já acontece com outras técnicas projetivas, como Rorschach, Pfister, PMK e outros.

Atualmente, o BBT vive no Brasil um período muito favorável à sua divulgação e utilização, o que certamente deixaria muito feliz o seu autor.


Referências:

Achtnich, M. Der Berufsbilder-Test, Projektives Verfahren zur Abklärung de Berufsneigung. Berna: Hans Huber, 1979.

Achtnich, M. BBT: Teste de Fotos de Profissões – Método Projetivo para Clarificação da Inclinação Profissional. Tradução francesa J. Ferreira Filho, supervisão técnica André Jacquemin e Sonia Regina Pasian. São Paulo: Centro Editor de Testes e Pesquisa em Psicologia, 1991.

Jacquemin, A. O BBT-Br: Teste de Fotos de Profissões: Normas, Adaptação Brasileira, Estudo de Caso. São Paulo: Centro Editor de Testes e Pesquisa em Psicologia, 2000.

Jacquemin, A.; Noce, M. A.; Assoni, R.F.. Dicionário de Atividades Profissionais, São Paulo, Centro Editor de Testes e Pesquisa em Psicologia, 2000.

Silva, Lucy Leal Melo e Jacquemin, A.. Intervenção em Orientação Vocacional/Profissional: avaliando resultados e processos. São Paulo: Vetor, 2001.

Welter, G. M. R.. Uma Experiência com o BBT – Teste de Fotos de Profissões em Recursos Humanos de uma Indústria Automobilística, in Anais do III Encontro da SBRO, 1998.

 
« Ver outros textos e publicações